GRUPO DE CIDADANIA EMPRESARIAL


Desenvolvimento de programas socio-educativos.

Entre em contato e torne-se um parceiro do Grupo.

Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente.

Inscreva-se para receber nossas informações e novidades.

Você é o que você come?

Fernanda Silva, especial para o Cidadania

Estudos indicam que os brasileiros consomem muito mais agrotóxicos do que o desejável

Foto: Peter Caton / Greenpeace
Foto: Peter Caton / Greenpeace
Segunda a pesquisa, 60% do consumido nas cidades contém agrotóxicos

No mundo, mais de 800 milhões de pessoas passam fome, enquanto a obesidade e o sobrepeso atingem cerca de 2,2 bilhões de habitantes. Os números, do relatório The State of Food Security and Nutrition in the World 2017 (O Estado Da Segurança Alimentar E Nutrição No Mundo, em tradução livre) e do Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME, sigla em inglês) da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, respectivamente, são reflexos da forma como os alimentos são consumidos, distribuídos e até produzidos. No Brasil, a conclusão é a mesma e foi indicada em uma pesquisa de teste toxicológicos, encomendada pelo Greenpeace.

A organização global que defende o meio ambiente analisou 12 alimentos naturais distribuídos em São Paulo (SP) e Brasília (DF). Na pesquisa, foi constatado que 60% deles continham resíduos de agrotóxicos. Alguns itens foram diagnosticados com mais de um tipo de pesticida e outros tinham químicos que não são permitidos para a produção do alimento específico. “O valor, entretanto, não é surpreendente”, ressalta Marina Lacorte, especialista do Greenpeace em agricultura e alimentação. “Isso é resultado de uma escolha feita anos atrás, de um modelo agrícola impactante e insustentável”, explica.

Presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, o deputado federal Nilson Leitão (PSDB-MT), entretanto, defende o uso destes defensivos agrícolas. “A produção brasileira é realizada em um país de clima tropical, constituída por maior número de pragas e maior severidade das doenças”, destaca. “Portanto, seu manejo exige maiores intervenções e medidas de controle mais intensas, o que resulta em um uso intensivo de defensivos agrícolas e outras tecnologias”, concluiu Nilson.

Arilson Favareto, professor de sociologia da Universidade Federal do ABC, ressalta, entretanto, que a maneira com que a produção de alimentos é feita pode ser um tiro no pé do próprio setor agrícola. Ele defende que não há esse tipo de produção sem chuvas, tampouco chuvas sem florestas — e a agropecuária continua avançando sobre essa vegetação. Para ele, as tecnologias de produção agropecuária estiveram, até hoje, voltadas, principalmente, a duas coisas: aumentar a produção, e produzir com menores custos. “A crise ambiental exige, todavia, que se agregue outro aspecto, o de manter ou aumentar a produção sem prejudicar os ecossistemas de que dependem as pessoas e a própria produção agropecuária”, afirma Favareto.

Foto: Dennis Reher/Greenpeace
Foto: Dennis Reher/Greenpeace
O Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo

Agrotóxico na mesa

A pesquisa do Greenpeace destaca que diversos alimentos testados apresentaram resíduos de mais de um tipo de agrotóxico, gerando o efeito coquetel — quando se misturam diferentes substâncias químicas. A combinação, todavia, pode ter consequências desconhecidas. “Sempre existem estudos em atividade, mas o que pode parecer tranquilo hoje, no futuro, pode ser descoberto como algo grave”, ressalta Amir Bertoni Gebara, pesquisador do Instituto Biológico (IB-APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Dentre os alimentos mais problemáticos, segundo a pesquisa, destaca-se o pimentão verde. Nele, foram encontrados sete tipos diferentes de resíduos de agrotóxico em uma mesma amostra.

Para chegar aos resultados, entre os dias 11, 12 e 13 de setembro de 2017, o Greenpeace comprou alimentos nas Capitais Brasília e São Paulo. O grupo, então, enviou 113 quilos de amostras para análise no Laboratório de Resíduos de Pesticidas (LRP) do IB de São Paulo. “Isto significa que a população, sem saber, está ingerindo alimentos que podem saciar sua fome, mas estão prejudicando sua saúde”, destaca Arilson Favareto.

O Brasil é o maior consumidor de pesticidas do mundo. Com isso, no País, os agrotóxicos são a segunda maior causa de contaminação das águas. Segundo o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa, as atividades agropecuárias no Brasil são responsáveis por 22% do total das emissões nacionais que contribuem para o aquecimento global. Além das consequências sociais e dos impactos ambientais, os agrotóxicos refletem também na saúde. Estudos indicam que câncer, aborto, mutações genéticas, problemas no sistema nervoso, desregulação hormonal, distúrbios e problemas no sistema reprodutivo podem ser acarretados pelo consumo dos agrotóxicos.

Foto: Anaray Lorenzo / Greenpeace
Foto: Anaray Lorenzo / Greenpeace
Alimentos orgânicos estão livres de agrotóxicos

Para Favareto, a população brasileira paga pelas escolhas feitas no passado e no presente de duas formas: “Tendo sua saúde comprometida, e custeando um sistema de saúde que precisará aumentar seus gastos para fazer frente a enfermidades que poderiam ser evitadas se tivéssemos uma alimentação mais saudável”. Segundo o professor, não é só o uso dos agrotóxicos que gera problemas deste tipo. O abuso dos alimentos industrializados e de baixo valor nutritivo também têm efeitos sérios na vida e saúde da população.

Leitão, entretanto, destaca que um agronegócio forte é sinônimo de alimentos mais baratos, segurança alimentar e geração de empregos e renda. “A FPA reitera que não existem malefícios no agronegócio, nas atividades produtivas e no uso dos agrotóxicos, desde que sejam respeitadas as leis vigentes, as Boas Práticas Agrícolas (BPAs) e o recomendado pela ciência”.

A curto prazo, para evitar possíveis riscos do uso dos agrotóxicos, segundo Marina, a população pode lavar bem os alimentos, fato que “mitiga o problema, mas não o resolve”. Outra alternativa é buscar alimentos orgânicos ou, pelo menos, mais saudáveis. “Sempre será preciso garantir que sejam produzidos alimentos em quantidade suficiente para alimentar a todos. Mas também é preciso garantir que esses alimentos possam chegar até as pessoas que precisam deles”, finaliza Arilson.