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Uma busca sem fim

Fernanda Silva, especial para o Cidadania

Mães de São Paulo se unem na procura por seus filhos desaparecidos e ONG apoia com campanha

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação
Com cartazes e camisetas, as mães vão ao centro de São Paulo em busca de informações sobre seus filhos

Faltavam dois dias para ao Natal de 1995 quando a pequena Fabiana Esperidão da Silva saiu de sua casa, em Pirituba, zona oeste de São Paulo, para parabenizar uma amiga pelo seu aniversário. Tempo depois, ela voltava acompanhada de outra colega. O momento em que as duas se separaram, cada uma rumo a sua própria residência, foi também a última vez que Fabiana foi vista. Ela estava a 120 metros de sua casa e, desde então, nunca mais a encontraram.

Começou, então, o drama de Ivanise Esperidião, mãe de Fabiana. Sem ideia de por onde começar, passou os três primeiros meses em uma busca solitária. De IML em IML, hospital em hospital, rua em rua. Temia que sua filha fosse enterrada com indigente. Se via em meio ao cheiro forte a ao ambiente precário dos Institutos Médico-Legais da Capital, folheando os arquivos de desaparecidos e mortos. “Cheguei no limite da minha loucura”, lembra. “Não sentia fome nem sono. Se eu passava mal na rua, ficava quietinha, com medo de alguém tentar me levar para o hospital e eu parar de buscar a Fabiana. Até que um dia não aguentei e fiquei internada. Lá, minha ficha caiu: eu era a única que podia me ajudar e procurá-la”, conta. Saiu determinada. Iniciou um projeto e logo foi convidada para, por meio de uma novela, transmitir sua luta. “Desde então, o telefone não parou mais de tocar. Montamos um grupo com mães de desaparecidos e esse coletivo foi aumentando”.

Trocou o “o” pelo “a” e o luto virou luta. Com o tempo, conheceu e se aproximou de mães com histórias semelhantes. “É uma dor que não cicatriza, um pesar inacabado. Meu maior medo é morrer sem encontrá-la”. Em 22 anos, a busca segue incessante. Não passa um dia sequer em que Ivanise não procure a filha que hoje tem 35 anos. “Meu coração tem certeza de que Fabiana está viva”.

Na busca, ela não mediu esforços. Sempre que a ligavam, Ivanise ia até o local. Chegou a viajar para a Bahia quando recebeu uma ligação da região dizendo que haviam visto uma menina parecida com Fabiana. Na mala, além de esperança, levava roupas para a filha usar na volta — tinha fé de reencontrá-la. Quando chegou na cidade de Novo Mundo, a 300 km de Salvador, viu que a jovem em questão nem se assemelhava a sua filha. Nesse momento, achou que ia enlouquecer.

Fotos: Divulgação
Fotos: Divulgação
Ivanise fundou a Mães da Sé, em São Paulo. Fabiana sumiu em 1995. Ilustração faz previsão de como ela estaria nos dias de hoje.

Forte, entretanto, acredita que tudo que passa tem um propósito. “Deus está testando minha fé e paciência. Ele usa minha filha como instrumento para ajudar outras pessoas”. Em 21 anos de atuação, viu que a desinformação das famílias é um dos grandes problemas. “A maioria é de classe baixa, não tem recursos financeiros e nem conhecimento dos seus direitos”, ressalta a mãe. “Quando a pessoa é rica, tem mais comoção e divulgação. Ainda assim, o caso é esquecido pela mídia com o tempo”.

O grupo soma 42% de caso resolvidos — 4.533 pessoas localizadas em todo Brasil. Além da divulgação de fotos e informações, eles também auxiliam as famílias na cobrança dos órgãos públicos e oferecerem serviços sociais e psicológicos. “A primeira sequela para uma mãe é a depressão, por isso, é importante o acompanhamento de um profissional. Precisamos aprender uma forma para lidar com a dor, com esse luto”, conta Ivanise que, hoje, não comemora mais Natal, aniversário ou dia das mães.

Com acompanhamento médico e ajuda do tempo, aprendeu a lidar com a dor de forma mais amena e consciente, mas, assim como muitas mães, não consegue evitar o sentimento de culpa. “Não estava em casa quando ela sumiu, penso muito nisso”, destaca. “Acho que ainda não fiz o suficiente. Muitas vezes, me sinto impotente e incapaz, mas tenho fé”.

Ivanise não está sozinha. Estima-se que, anualmente 200 mil pessoas desaparecem no Brasil, sendo 40 mil crianças e adolescentes. Segundo a Delegacia de Pessoas Desaparecidas do Estado de São Paulo, ligada ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), a média é de 60 casos de desaparecimentos registrados diariamente somente na Capital.

Para Ivanise, a internet ajudou na busca. As redes sociais também são agentes facilitadores. Quem procura por desaparecidos, pode fazer o cadastro de busca no site do Mães da Sé online e a distâncias. Ainda assim, um grupo se reúne a cada quinze dias na porta da Catedral da Sé, centro de São Paulo, com cartazes, fotos e a esperança de encontrar seus filhos. Para a mãe de Fabiana, apenas duas coisas a mantém em pé: a esperança e a fé de um reencontro. “Ninguém entende a dor e o amor de uma mãe”, finaliza.


MAIS INFORMAÇÕES: http://www.maesdase.org.br