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Questão de ser

Fernanda Silva, especial para o Cidadania

Em meio a nem sempre fácil vida universitária, “aula de felicidade” é oferecida em Brasília

Fotos: Divulgação
Foto: Digulação
Julia acredita que a aula de felicidade pode ajudar os alunos

Antes, a situação incomodava. Mas, como acontece com muitos, ela só passou a ser preocupação e foco quando Julia Pegado entrou na faculdade. A fase, que virou um problema na vida da estudante tem nome, diagnóstico e solução: a depressão. A história começa aos dez anos. Até então, ela era filha única. E quem, no início da pré-adolescência, vai querer dividir tudo o que tem com uma criancinha prestes a nascer? Começou, então, um tratamento psicológico para assimilar melhor a novidade. A curto prazo, resolvido.

Anos mais tarde, foi o bullying quem atacou. "Isso nunca me afetou tanto quanto eles achavam que me afetava, mas voltei a passar no psicólogo”, relembra Julia. Mas foi só no final do ensino médio que as coisas pioraram. Isso porque, finais de ciclos nunca foram fáceis para ela. Início de novos - e toda adaptação por trás dele, tampouco. "Para mim, foi muito difícil sair do ensino médio e entrar na faculdade. Foi aí que eu descobri meu quadro de depressão e ansiedade”.

Julia virou mais um número nas estatísticas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2015, cerca de 322 milhões de pessoas sofriam com a depressão - cerca de 5% de toda população do planeta. No Brasil, a porcentagem ainda é maior e chega aos 5,8%, colocando o país como o que possui maior número de pessoas em depressão na América Latina.

Parra Julia, ela chegou sorrateiramente. "No começo, eu não queria sair, fazer as coisas e eu acreditava que era um problema de adaptação". Com o tempo, viu que a situação estava se estendendo:  "As vezes, eu mesma coloco uma pressão em cima de mim que não existe, e eu fico sofrendo por conta dessa pressão que eu coloquei na semana de prova, por exemplo".

"Hoje, a depressão está na minha vida de uma forma diferente, eu faço tratamento psiquiátrico e acompanhamento com a terapeuta", destaca a estudante de Rádio, TV e Internet, da Faculdade Cásper Líbero. "Então é algo que eu consigo controlar, de certa forma, eu estou compreendendo ela melhor e lido com as coisas de um jeito diferente".

Mas, muitas vezes, para aprender a lidar, não apenas com a depressão, mas também outras questões psicológicas, é preciso ajuda. Em meio à pressão universitária, muitos, nem se dão conta da necessidade de uma auxílio em prol de uma melhor saúde mental. E foi pensando no bem-estar dos alunos da Universidade de Brasília, que lá, surgiu a "aula de felicidade".

Ajuda em classe

A ideia da “Aula de felicidade” surgiu através da Comissão de Saúde mental da UnB. Foram vários indicadores que levaram a decisão da criação de uma eletiva com esse intuito, entre eles o número de evasão, atestados relacionados a saúde mental e, até, carta de pais pedindo ajuda, além, claro, do convívio. “O índice de depressão e ansiedade são características dessa sociedade em que vivemos, cheia de pressão, onde o ter é maior valioso que ser”, destaca Wander.

Em meio à uma Universidade de engenharia, para alguns professores, que defendem o espaço com viés mais teórico, a nova aula pode ter soado estranha. E aí, foi preciso um processo de convencimento. Mas não para Wander Pereira que, com formação em psicologia, é o responsável por lecionar felicidade.

A aula, assim como outras, vale créditos para os alunos. O programa semestral começa com um alinhamento conceitual de psicologia e felicidade, passando por estudos comportamentais. “Nosso objetivo não é formar especialistas em felicidade, apesar de passarmos um pouco por uma parte mais conceitual e técnica. Mas seria ir na contramão exigir resenhas, grandes quantidades de leitura, entre outras coisas”, destaca o professor. “Vamos falar de autoconhecimento, o que é felicidade para cada uma das pessoas, queremos descobrir isso”.

“Claro que o estado de espírito das pessoas é algo muito subjetivo. Não tem como usar uma régua e medir e, tampouco, vamos conseguir ensinar o que é felicidade”, ressalta Pereira. “Vamos mostrar como ter autoconhecimento e enfrentamento das situações que são familiares a eles, como encontrar e traçar seus próprios caminhos para atingir isso”.

A atividade final também será diferente. Os alunos terão que propor uma ação de felicidade nos campos em qualquer formato: dança, música, teatro. A aula é oferecida apenas para alunos da UnB, mesmo que de outros campis da Universidade que não o de engenharia – onde as aulas são lecionadas. Longe dali, Julia acredita que as atividades podem ajudar aos alunos no convívio com as situações que precisam enfrentar. "A aula de felicidade pode ajudar na diferenciação do que vale a pena ou não sofrer na universidade, para que esse seja um momento vivido com um pouco mais de calma. Ela pode ser muito importante e ajudar muito", destaca.