GRUPO DE CIDADANIA EMPRESARIAL


Desenvolvimento de programas socio-educativos.

Entre em contato e torne-se um parceiro do Grupo.

Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente.

Inscreva-se para receber nossas informações e novidades.

Para além das regras

Fernanda Silva, especial para o Cidadania

Projeto holandês promove futebol em São Paulo

Foto: Gustavo Vaz
Foto: Gustavo Vaz
Muitos beneficiados sonham em ser jogadores de futebol

Imagine um futebol com, além das regras convencionais, outras 14. Elas, entretanto, não falam de tempo de jogo, parada de bola e outras características típicas da modalidade. Falam de valores. O número, não é à toa. A iniciativa, também não. Foi com 14 que o holandês Johan Cruyff se sagrou um dos maiores futebolistas do país. É com esses dois algoritmos que novas ideias são agregadas ao esporte mais popular do Brasil, por meio da Fundação Cruyff Court.

A fundação saiu da Holanda há seis anos, desbravou os mares e chegou ao Brasil. Aqui, se estabeleceu na região de Ermelino Matarazzo, na cidade de São Paulo. Desde então, cerca de 1800 crianças e adolescentes foram atendidos. Mais de 300 alunos entre meninos e meninas participam nesse momento dos treinos.

Criado em 1997 por Johan Cruyff, eleito pela Federação Internacional de História e Estatística do Futebol o melhor jogador europeu do século, os Cruyffs Courts oferecem espaços para a prática esportiva, educam para cidadania e propõem qualidade de vida. No mundo, milhares de crianças e jovens participam desse projeto, sendo que o de Ermelino Matarazzo é o primeiro das Américas.

Quando chegou em terras tupiniquins, o objetivo da inciativa era proporcionar a jovens um local seguro para jogar futebol. Logo, eles se deram conta que era preciso fazer mais. “Não é suficiente só oferecer um espaço seguro de jogar para os jovens. Era necessário promover todo um programa educativo junto”, explicou Joelke Offringa, coordenadora do projeto Cruyff Court Ermelino Matarazzo

A iniciativa notou que era possível desenvolver capacidades, cognitivas e emocionais pelo esporte. “Esse é um meio eficaz de desenvolver integralmente a pessoa. Há uma relação direta entre corpo e mente”, destaca Offringa. “Com o desenvolvimento das habilidades, a pessoa se sente mais segura, tem melhor condição física, começa a se sentir diferente, atuar diferente em frente a outras pessoas, desenvolve, faz novas conexões no cérebro”.

Ederson Balbino Cruz começou o trabalho em Ermelino Matarazzo há um ano e sente que tem a responsabilidade de auxiliar na formação não só esportiva, mas também cidadã dos atletas: “Temos o objetivo de melhorar o respeito e a conduta dos beneficiados. Para isso, usamos as 14 regras da metodologia”, explica. A diferença começa no campo, que não tem linhas laterais nem marcação de área para que o jogo seja mais dinâmico. Além disso, eles misturam os modos de jogar do brasileiro e do holandês. Para isso, eles importam o carrossel da Holanda, em que os jogadores não têm posição fixa. “O futebol é um jogo imprevisível”, ressalta.

Além das lições sob a grama verde, as 14 regras adicionais ainda impactam e ajudam na convivência e cidadania. “As habilidades sociais e emocionais são desenvolvidas quando se joga em equipe, tem responsabilidade, respeito mútuo e cooperação. Todos esses valores e habilidades são praticados enquanto você está no esporte”.

“Em todo jogo enfatizamos as 14 regras. Não adianta saber futebol se não sabe jogar junto. Nosso objetivo não é formar um atleta, mas um cidadão”, destaca o treinador. “Às vezes, fazemos o aluno jogar em uma posição que não é a dele. Colocamos um cara da linha no gol, para eles entenderem que precisam tentar coisas novas. Fazemos eles vivenciarem outros jogos e atividades também”.

O professor ressalta: “Sempre mostramos que precisam aprender a lidar com a vitória, com a derrota, com a frustação e até com erro do próximo. A gente ensina também muito sobre fair play, sobre ajudar o próximo”.

Segundo a instituição, as mudanças na região, depois de sete anos, são evidentes e podem ser notadas física e mentalmente. “Começamos em um local bastante destruído e, hoje, é um espaço diferente na área do espaço público. Antes tinha um campo de concreto bem deteriorado”, destaca Offringa. “Com o tempo, outro campo ganhou também melhoria com esforço do Cruyff Court e da comunidade”.

Para todos

Desde os 14 anos, Fernanda Aparecida Gomes frequenta o Cruyff Court. A paixão pelo futebol, entretanto, é antiga –e está no sangue. É filha, sobrinha e irmã de apaixonados pelo esporte. Começou quase como uma distração. Como para tantos, uma desculpa para sair da rua. Mas não foi. Ou melhor, foi também, mas não só. Mas não era tão fácil. Apesar de toda a estrutura do projeto holandês, encontrou lá a mesma situação que via na rua: tinha que jogar com meninos. “Era bolada, empurrão, eles não sabiam lidar com uma menina junto”, recorda. Hoje, entretanto, comemora. A iniciativa tem não só uma turma para meninas, mas um grupo em que consegue formar três times. “Fico mais livre e é bem melhor para jogar”, destaca.

“As meninas também fazem parte dessa metodologia. A gente passa para elas que isso é algo da própria cultura do futebol, que ainda é machista e o esporte acaba não sendo tão difundido”, ressalta Ederson Cruz. “Mas não é por isso que elas não devem correr atrás de seus sonhos e brilhar. Só que, antes de tudo, elas precisam ser pessoas de bem”, conclui o professor.

Fernanda sabe que apesar de viver no País do futebol, ser um jogador não é missão fácil. Ainda mais para uma mulher. “Mas eu não desisto. De um lado, minha situação financeira não permite que eu fique tentando. Mas do outro, eu tenho muita fé. Essa esperança, com o apoio da minha mãe e dos meus professores, me mantém lutando”, conclui.

“É importante ter o sonho, que pode ser ser jogador de futebol. Pelo sonho, você é motivado a se dedicar, crescer, fazer mudanças necessárias na sua vida para você crescer. O futebol acaba sendo um meio para você se desenvolver”, finaliza a responsável pelo projeto, Joelke Offringa.