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O que se ganha quando se perde

Fernanda Silva, especial para o Cidadania

Mulheres do Pará unem-se e dividem a dor de perder o cabelo para um motor de barco. Entenda

Fotos: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal
Parte da pele da coxa de Larissa foi removida para implantar na cabeça

Apesar de ter desmaiado na metade do caminho, Larissa Lopes Paixão lembra com detalhes do dia que mudou sua vida. Era 25 de dezembro de 2007, quando a menina, então com dez anos de idade, insistia para que a sua mãe, Marlene Lopes Paixão, lhe deixasse ir a outra pequena cidade, também no interior do Pará, buscar a sua prima. Depois de uma série de ‘nãos’, a mãe finalmente cedeu. No dia 26 pela manhã, Larissa saiu da casa de seu avô, na cidade de São Sebastião da Boa Vista, e foi até a casa da tia, igualmente no pequeno vilarejo, em meio a Ilha do Marajó.

Vestia shorts e blusa rosa. Acompanhada de cinco primos e uma tia, entrou no Popopo, como é chamada na região a pequena embarcação feita por um local. A partir da daí, não se lembra de mais nada — apenas do que foi contado por sua família, tempo depois.

Com seus longos e cacheados cabelos, foi deitar-se ao lado da prima, na proa do barco. Quando estava inclinando-se para sentar, desmaiou. Seus fios foram brutamente puxados pelo eixo do motor que controlava a embarcação.

“Minha memória só volta quando eu já estava de novo na casa da minha tia”, conta Larissa. “Eu enxergava tudo vermelho, porque a minha pele estava caída sobre os olhos”, recorda. Hoje, aos 20, ainda lembra do choro dos primos e da reação da mãe, também em meio às lagrimas, no momento em que a viram: “Vamos levar minha filha para Boa Vista (PA)”, exclamava Marlene. Juntas, foram à cidade. Lá, Larissa fez a primeira cirurgia e depois, de helicóptero, o destino foi Belém (PA). Os 114 km sobrevoando a região foram percorridos também em meio ao desespero da mãe. “Eu pedia para ela não chorar, falava para voltarmos para casa. Nem dor eu sentia”, conta Larissa.

Na Capital do estado, passou quatro meses na Santa Casa. O choque só veio quando, ainda internada, recebeu a notícia de que havia perdido a sobrancelha. “Chorei muito. Pensava que, para o problema do cabelo um chapéu resolveria. No rosto, não tinha o que fazer”, conta.

Foto: Arquivo pessoal
Para melhor sua autoestima, Regina conta com o apoio da filha

Dez anos depois, usando peruca e com sobrancelha reconstituída por meio de tatuagem, Larissa ainda sente um pouco do incomodo. “Mas eu não me deixo colocar para baixo por isso”, destaca. A dor é dividida com outras mulheres de histórias parecidas. Regina de Lima é uma delas. Sofreu o escalpelamento quando morava em Muana, no interior do Pará, aos 22 anos. Na ocasião, saiu para passear de barco e, na volta, sentou-se próximo ao motor que não tinha o eixo coberto e protegido. “Meu cabelo varou na brechinha da tábua e eu só senti quando puxou e arrancou totalmente — inclusive as duas sobrancelhas”, lembra.

Foi levada ao hospital, ficou internada cinco meses e enfrentou quatro cirurgias. “Minha vida mudou. Não pude mais trabalhar no rio, no sol e fazer os trabalhos na roça que eu fazia”, conta. Tempo depois, aprendeu a confeccionar as perucas quando surgiu a sede da Orvam (Ong dos Ribeirinho Vítima de Acidente de Motor), em Belém. Fez um curso e decidiu tornar isso sua profissão. “Achei difícil, mas eu não desisti”.

A INICIATIVA

A Orvam começou em 2010, quase que por acaso. Uma vítima do mesmo tipo de acidente buscou um programa de televisão, que deu todo apoio para que a ONG iniciasse seus trabalhos. Além disso, cursos de peruqueiras foram oferecidos pela emissora. Regina mergulhou na proposta. Hoje, é a responsável por confeccionar as mexas que ajudam tantas mulheres. As próteses são feitas a partir de doações de cabelo vindas de todo Brasil. “Lá, consegui recuperar minha autoestima, vencer uma etapa difícil e usar a peruca”, lembra Regina de Lima. “Venci também o preconceito da sociedade, que fica encarando e criticando se você usa uma coisa diferente”, destaca.

Darcileia Maria Gomes de Lima, assistente social, hoje, é a presidente da Orvam. Para ela, além de alertar a sociedade e prevenir esses acidentes, é importante auxiliar quem já o sofreu. “Trabalhamos com a auto estima, contra o preconceito e fazemos com que se sintam mulheres normais. Mostramos que elas podem conviver em sociedade”, destaca Darci.

PRECONCEITO

“A cicatriz fica muito feia. Sinto esse preconceito. Não ligo, não me ofendo — mas esse preconceito existe”, conta Regina de Lima. Segundo ela, com o tempo, os olhares se naturalizaram. “Já não faz diferença”. Apesar de ter se acostumando com a condição, Regina ainda luta contra o próprio reflexo. “Parecemos monstros. Quando olhamos nos no espelho pela primeira vez, parecemos coisa mais feia do mundo”, lamenta a peruqueira.

Hoje casada, Regina recebe o amor e apoio do marido. Ela, entretanto, segundo Darcileia de Lima, é exceção. “Tem muita família que os filhos, os maridos e os irmãos abandonam. Algumas meninas vieram para Belém porque a família as deixaram para trás”, destaca. “Por isso lutamos para que elas se sintam bem e vivam em sociedade”.

DIREITOS

Entre 2000 e 2016, foram registrados 243 casos de escalpelamento na Capitania dos Portos da Amazônia Oriental (CPAOR), organização da Marinha do Brasil, que atua na região do Pará, Piauí e Maranhão.

Esse ano, o número reduziu de seis, em 2016, para apenas um. “As embarcações são meios de transporte desses moradores e muitas vezes são feitas de maneiras clandestinas, em fundo de quintal, porque eles não têm condições de pagar por outras mais caras e seguras”, conta Darcileia de Lima. “É um acidente que infelizmente, ainda não conseguimos combater”, destaca a presidente.

A luta contra o escalpelamento e o alerta de riscos é constante. Para isso, 28 de agosto foi consagrado como o Dia Nacional de Combate ao Escalpelamento. Além da campanha, leis reforçam a importância de colocar o assunto em pauta com o intuito de reduzir as estimativas e seus impactos.

Para evitar os incidentes, em 2009, a Lei 11.970 entrou em vigor. Ela tornou obrigatório o uso de proteção no motor, eixo e partes móveis das embarcações, de forma a proteger os passageiros e tripulações. Estima-se que, entre as vítimas, a maior parte, 65%, são crianças. Os adultos representam 30%. Já os idosos, são 5%. Além disso, as mulheres são a maioria afetada: elas sofrem 95% dos casos de escalpelamento.

O que muitos não sabem é que pessoas sofreram escalpelamento podem pedir por Benefício de Prestação Continuada (BPC) do INSS, ou seja, um salário mensal, que depende da comprovação da necessidade por meio de avaliação socioeconômica. “Mas não é uma aposentadoria”, destaca Larissa Lopes, beneficiada.

Para conseguir o pagamento de um salário mínimo mensal, as vítimas de escalpelamento seguem o mesmo protocolo da pessoa com deficiência ou idosa. Para isso, é preciso estar abaixo do limite de renda estabelecido e realizar avaliação da deficiência, que identificará a existência de barreiras que impeçam a sua participação na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. “Se a gente aceitar o fato, podemos começar uma nova vida, tudo de novo”, finaliza Regina.