GRUPO DE CIDADANIA EMPRESARIAL


Desenvolvimento de programas socio-educativos.

Entre em contato e torne-se um parceiro do Grupo.

Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente.

Inscreva-se para receber nossas informações e novidades.

Memórias de mulheres

Mei Hua Soares (*)

Foto Divulgação
Foto Divulgação
Mei Hua: “A cada encontro, as narrativas-relatos brotavam pelos poros”

Conforme envelhecemos, nossas narrativas perdem ou ganham força? Walter Benjamin ressaltou em texto a perda da capacidade de narrar por parte dos soldados que voltavam do front emudecidos pelas atrocidades vividas. O mesmo filósofo frankfurtiano assevera que “a experiência de narrar está em vias de extinção. São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente” .

Em convite para participar de uma oficina de teatro e texto autobiográfico organizada por Marli Siqueira Leite e pelo Grupo de Pesquisa Linguagens na Educação da Faculdade de Educação da USP, coordenado por Neide Luzia de Rezende e Gabriela Rodella, em parceria com o Núcleo Cultural do IAMSPE (Centro do Idoso), supervisionado por Frederico Barbosa, eu e o dramaturgo Rogério Guarapiran ficamos responsáveis por leituras, escritas e vivências teatrais destinadas a um criativo grupo de mulheres acima de 70 anos.

Uma despretensiosa proposta tornou-se prática de recuperação de memórias individuais e coletivas. A partir das dinâmicas realizadas – todas perpassadas por narrativas que jorravam espontâneas, carregadas de sentidos, de polissemias – foi possível ter acesso à quantidade de conhecimentos acumulados por essas sábias mulheres de trajetórias tão distintas. Lembranças particulares se amalgamavam a acontecimentos da pólis: as histórias e as Histórias. Pela modestíssima Alcinete, sempre a alegar desconhecimento prévio diante das proposições de escrita, por ser “antiga” ou “despreparada”, tivemos acesso à poética frase que alçou sua autora, ao menos em meu imaginário, ao patamar das deidades femininas: “Eu iniciei o mundo”. A vingança de Neuza, nascida num rio de Ubatuba, que aos oito anos fora castigada corporalmente pela professora e cantara uma paródia escatológica do Quarto Centenário para a comunidade escolar como forma de retaliação (o que lhe rendeu uma expulsão) nos faz refletir sobre insurgência e audácia, por vezes tão necessárias. As vizinhas fofoqueiras da infância de Astrid, quase extensões das grandes janelas de Santos (coladas às calçadas), que as narrou detalhadamente em seus travesseiros cuidadosamente acomodados nos parapeitos de modo a fazer suas donas aguentarem um tempo maior de vigilância alheia, trazem reminiscências provincianas. A esfuziante Maria, entoando cantigas de roda que marcaram gerações, “qual delas será, a da frente ou a de trás? a da frente corre mais, a de trás ficará”, proporciona acesso ao que Guimarães Rosa chamava de “macio interno das pessoas”. A simplicidade comovente de Rena, cujos pais compraram um caixão para a filha aguardando-a natimorta após a perda de cinco outros bebês, nos põe a pensar sobre a vida, sobre a morte, sobre vida-morte-vida, mistérios que ela diz decifrar e conhecer. A cada encontro, as narrativas-relatos brotavam pelos poros, ficção descartada provavelmente pela quantidade e qualidade de experiências acumuladas em vida que suplantam qualquer necessidade de ilusão.

Muito se diz sobre a velhice. Não arriscaria muito mais. Apenas registro um agradecimento tácito por ter acesso a essa fenda temporal proporcionada pelas narrativas de quem generosamente as põe em circulação entre os mais jovens.  Ecléa Bosi sabiamente arremata: “O ancião não sonha quando rememora, desempenha uma função para a qual está maduro, a religiosa função de unir o começo ao fim, de tranquilizar as águas revoltas do presente alargando suas margens”.

 


*  Doutora em Educação e Linguagem (Feusp), professora e pesquisadora (CIP) da Faculdade Cásper Líbero, atriz e dramaturga