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Hora de recomeçar

Fernanda Silva, especial para o Cidadania

Tatuagens aumentam autoestima de mulheres que perderam a mama para o câncer

Foto Divulgação
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Ana resgatou sua autoestima após a tatuagem”

Podia parecer o fim. Era a segunda vez que o câncer de mama entrava na vida de Ana Rita Vianna. Era 2014 e 17 anos antes, a doença já tinha lhe tirado muito. Além do seio, junto com o primeiro diagnostico, se foram seu emprego e sua moradia. Ela saiu do Pará, onde morava, e com seu filho de apenas cinco anos, começou o tratamento em solo paulista. Recuperou-se e seguiu até que a doença, outra vez, apareceu. Tendo perdido o segundo seio e tendo os dois reconstruídos, sentia muito por ter ficado sem os mamilos. Apesar de parecer um detalhe, as duas partes ausentes afetavam a vida e autoestima de Ana.

“Por todo esse período, não queria conhecer ninguém, nenhum homem, porque tinha vergonha do meu corpo”, lembra ela. “Quando conheci alguém, me perguntou como seria mostrar para ele meu corpo, já sem mamilo. Veio, então, a ideia de fazer a tatuagem”.

No Rio de Janeiro, o outro lado da história.

Rodrigo Catuaba é um renomado tatuador da região. Ele ficou conhecido pela perfeição ao fazer imagens realistas. Os impressionantes desenhos começaram ainda na infância, quando ele fraturou a coluna e, sem poder sair do quarto durante a recuperação, adotou o lápis e o papel como melhores amigos. De lá pra cá evoluiu — e muito. Resolveu, então, usar sua arte para melhorar a autoestima de mulheres como Ana, que perderam seus mamilos para o câncer.

O encontro dos dois aconteceu como é clichê para o tatuador. Em uma manhã de segunda-feira, data e horário em que Rodrigo dedica seu trabalho exclusivamente a mulheres que querem reconstituir a parte da mama, Ana chegou em seu estúdio. Saiu de lá renovada.

“O Rodrigo tem uma parte super importante nessa questão de resgatar minha autoestima, de eu voltar a ser mulher”, conta, com a voz cheia de gratidão. “Sempre fui guerreira, mas tinha esquecido o lado mulher. Com a tatuagem, foi incrível. Ele não sabe, mas ajudou a resgatar a mulher que eu sempre fui e que estava adormecida”.

Aceitação para todas

Foto Divulgação
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A experiência com desenhos realistas ajuda Catuaba a realizar o sonho de dezenas de mulheres
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Enquanto Rodrigo é o responsável por reconstruir os mamilos, Diego, seu colega, adorna as mamas com desenhos delicados

A ideia de reconstruir os mamilos começou depois de uma primeira procura, feita por uma mulher após indicação médica. “Quando a tatuagem terminou, ela se derramou a chorar dizendo que eu tinha mudado a vida dela. Que eu tinha feito um bem tão grande para ela que não imaginava”, relembra Rodrigo Catuaba. “Muitas mulheres, assim como ela, precisavam de mim. Desde então eu tive a ideia de fazer esse projeto sem cobrar”, recorda.

No começo, a busca pelo trabalho era pequena. Uma ou outra o procurava para refazer o mamilo. Depois de uma reportagem na TV local, a ação se transformou em um projeto social. Rodrigo separou, então, todas as segundas-feiras do ano, na parte da manhã, para atender essas mulheres que precisavam reconstruir o mamilo. Ele também conta com a ajuda de Diego, outro tatuador do estúdio, que faz a cobertura da cicatriz com algum desenho delicado e feminino.

“Eu poderia pagar e ele não aceitou nada, nem a tinta. Ele não quis absolutamente nada e fez um trabalho incrível”, destaca Ana. “Eu precisava me sentir bem, era por mim, não pelos outros”.

“Você não tem ideia da felicidade delas quando termina o processo e elas se olham no espelho e vêem o mamilo novamente”, recorda Catuaba. “É muito gratificante pra mim ver essa felicidade e o sorriso no rosto de cada uma. Não há dinheiro que pague essa sensação. É emocionante realizar esse projeto”.

Rotina como prevenção

Ana Rita está longe de ser exceção no Brasil. Cerca de 28% dos casos novos de câncer, a cada ano, em terras tupiniquins são de mama. Se é difícil prevenir a doença, fazer exames periodicamente ajudam mulheres que fazem parte do grupo de risco, principalmente aquelas que têm histórico familiar.

Por isso, é rotina: todo mês de janeiro, dona Zélia Torrigo vai ao médico para fazer um check-up “dos pés à cabeça”. Aos 72 anos, já estava acostumada com o incômodo da, mais do que nunca necessária, mamografia. Tempo depois de realizar o exame no último ano, recebeu uma ligação que mudaria sua vida: ela tinha câncer de mama. Seu tratamento, destaca, foi todo feito no SUS. “E foi ótimo”, enfatiza.

Sua doença, entretanto, estava sobre controle. O tumor era pequeno, já que ela fazia o controle anualmente. A cirurgia foi feita gratuitamente na PUC-Campinas e, depois disso, 28 sessões de radioterapia foram realizadas. Ela, entretanto, não chegou a perder os cabelos.

“Foi comparada a performance entre as clínicas privadas e as clínicas do SUS no estágio um e dois, com doenças mais iniciais e o resultado, em questão de cinco anos de sobrevida, foi igual”, destacou Dr. Gilberto Amorim, oncologista da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica. “Mas nas pacientes de estágio três, com tumores localmente avançados, que são a maioria na rede pública, a diferença foi real. O desempenho das pacientes do estágio 3 no SUS foi inferior ao das pacientes tratadas em clínicas privadas”, ressaltou o médico.

Em todo mundo, o mês de outubro é considerado o mês da conscientização deste tipo de câncer. O objetivo é alertar as mulheres principalmente (já que homens são apenas 1% dos casos), sobre a importância de fazer exames periódicos afim de obter um eventual diagnóstico precoce. O câncer de mama é o mais incidente na população feminina mundial e brasileira, desconsiderando, apenas, os casos de câncer de pele não melanoma.