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Em prol da vida

Fernanda Silva, especial para o Cidadania

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação
O coletivo Mães em Luto da Zona Leste une mulheres que tiveram seus filhos mortos

Eduardo de Jesus tinha apenas 10 anos de idade quando levou um tiro no rosto e foi morto. Ele estava em frente à sua casa, no Complexo do Alemão (RJ). Era 2 de abril de 2015 quando o pequeno esperava sua irmã com celular não mão, na área externa de onde morava, e foi atingido por uma bala, vinda, segundo relatos de sua mãe, Terezinha de Jesus, do fuzil de um policial militar da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) do Alemão. “O policial falou que meu filho era filho de bandido. Ele tentou incriminar o Eduardo para se safar””, conta Terezinha, ainda com luto na voz.

Um mês antes, em 3 de março de 2015, foi a vez de Victor Antônio Bravo. Aos 20 anos, o jovem foi pego em uma saidinha de banco e levou três tiros. Apesar de saber que o filho estava errado, sua mãe, Solange de Oliveira, defende que o rapaz poderia estar preso, pagando pelo que fez, e não morto. “No Brasil, pena de morte só não existe no papel. Quem mora na periferia sabe bem disso”, destaca Sol, que é também uma das líderes do coletivo Mães em Luto da Zona Leste.

Os dois jovens, Eduardo e Victor, fazem parte das estatísticas. Se você demorar 15 minutos para ler essa reportagem, quatro homicídios terão acontecido em algum lugar da América Latina. A taxa alta, levantada pelo do Observatório de Homicídios, do Instituto Igarapé,  soma-se a outros tantos dados que apontam o quão problemático é o assunto. Com apenas 8% da população mundial, a região concentra 38% dos homicídios — cerca de um terço dos assassinatos de todo o mundo ocorre em sete países: Brasil, Colômbia, El Salvador, Guatemala, Honduras, México e Venezuela.

“A violência letal é um fenômeno complexo, em geral, resultante de não apenas um elemento, mas do acúmulo de múltiplos fatores de vulnerabilidade. Entre eles, estão desigualdade, desemprego (especialmente entre os jovens), baixa escolaridade, urbanização rápida e irregular, acesso desregulado a armas”, ressalta Dandara Tinoco, coordenadora da campanha Instinto de Vida pelo Instituto Igarapé. O projeto conta com mais de 50 organizações não governamentais de sete países e tem como objetivo a redução dos homicídios em 50% nos próximos dez anos. “ É sempre bom lembrar que reduzindo a violência letal em 7% por ano, conseguiremos alcançar a meta”, ressalta Rodrigo Arnaiz, coordenador de mobilização da aliança.

Para realizar o feito, o grupo acredita que é preciso colocar o tema em evidência. “Esse problema não vem sendo enfrentado de maneira adequada. Infelizmente, ainda prevalece por parte das autoridades um entendimento de que segurança é sinônimo de mais polícia e prisões”, destaca Dandara. Segundo a CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens, de junho de 2016, a taxa de homicídio entre adolescentes negros é quase quatro vezes maior do que entre os brancos (36,9 a cada 100 mil habitantes, contra 9,6). São 63 por dia. Um a cada 23 minutos. “Isso porque a violência letal não se concentra apenas em locais, mas também em grupos específicos”, destaca Dandara.

Uma revisão feita pelo Instinto de Vida que leva em consideração várias cidades latino-americanas mostra que 90% de todas as vítimas entre 2003 e 2014 eram jovens do sexo masculino. A cor da pele e a condição social também são fatores importantes nesses casos: homens, pobres e não brancos estão sob maior risco de serem vítimas.

Problema em solo brasileiro

O relatório final da CPI apresentou outros números estarrecedores sobre a violência no Brasil. Segundo o documento, em 2012, 56 mil pessoas foram assassinadas no País. Do total de mortos, 53% são jovens (entre 15 e 24 anos), 77% são negros e 93% são do sexo masculino. Segundo dados enviados pelas 27 Secretarias de Segurança Pública dos estados ao Ministério da Justiça para a realização da CPI, cerca de cinco pessoas mortas pela Polícia por dia no Brasil. “Em toda periferia isso acontece. Em um bairro de classe alta, ninguém chega matando. Na favela, matam”, destaca Solange de Oliveira.

Fotos: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal
Depois da morte de seu filho Victor Antônio, Solange iniciou um coletivo

O Brasil registrou, em 2015, 59.080 homicídios. Isso significa 28,9 mortes a cada 100 mil habitantes, segundo o Atlas da Violência 2017, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).  A cada cem pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. De acordo com informações do Atlas, os negros possuem chances 23,5% maiores de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças.

Além de colocar o tema no topo das prioridades da agenda de segurança, a iniciativa destaca a importância da conscientização do público para prevenir e reduzir homicídios. “A importância de termos mais pessoas envolvidas no processo de decisão política, seja na cidade, no país, na área de segurança pública e violência letal, entre outras é conseguir construir um espaço mais próximo daquele que sonhamos”, conta Rodrigo Arnaiz.

O grupo também prega a garantia de acesso à Justiça, ao devido processo legal e a considerável contenção da violência.  “A complementaridade dessas estratégias aumenta o potencial da campanha, uma vez que os membros têm expertise tanto na aproximação de autoridades e fazedores de políticas públicas, quando no trabalho junto à sociedade civil”, destaca Dandara. “Estimulamos os cidadãos a formar redes capazes de fazer pressão pela adoção de estratégias. Em termos práticos, isso é feito, por exemplo, por meio de eventos públicos (seminários, workshops, festivais, entre outros), reuniões, lançamentos de publicações físicas e em redes sociais”, explica.

“Com isso, é possível chegar a autoridades, especialistas, fazedores de políticas públicas e cidadãos em geral. Conseguimos também nos aproximar de autoridades e fazer com que assinassem compromissos públicos em diferentes países”, lembra.