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Didier Drogba, atacante, Rei de Londres e pivô de um cessar-fogo. Como assim?

Nicholas Payton (*)

Foto Divulgação
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Nicholas Payton: O futebol dilui todas as fronteiras e todas as diferenças

A Costa do Marfim é um país que territorialmente pode ser dividido em 2 partes bem distintas: O Norte, onde predomina a Savana Africana, e o Sul onde encontra-se as florestas, sendo esta a região mais produtiva da nação o que gera uma maior bonança a região austral do país. Essa “divisão natural”, já causa conflitos que conta ainda com um agravante. No território Marfinense há cerca de 60 etnias diferentes, além de muitos grupos de imigrantes vindos de países mais pobres como Burkina Fasso que adentram a região Norte (a mais pobre) do país.

Em 1993, morrera o então presidente Félix Houphouet-Boigny, que governou o país desde 1960, a Costa do Marfim passaria pela primeira vez por eleições democráticas em sua história, marcadas para 1995, e aí veio o grande problema. Impediu-se que pessoas cujos pais não fossem naturais de solo Marfinense pudessem se candidatar à presidência do país, uma clara manobra em prol da região sul, visto que na região Norte havia um grande contingente de imigrantes; A ação excluiu da disputa Alassane Ouattara (que futuramente venceria uma eleição democraticamente) que tinha feito parte do governo de Houphouet-Boigny, filho de pai de Burkina Faso e, portanto, um representante do norte do país.

Em 2000, Outtara tentaria novamente se candidatar a disputa da presidência, mas uma nova constituição o proibira de se tornar elegível por não ter pais marfinenses. Este foi o estopim para que em 2002 tropas rebeldes do Norte atacassem diversas cidades do Sul, inclusive a capital Abidjan, tentando tomar o poder. Estava em andamento a Primeira Guerra Civil da Costa do Marfim

Drogba, nasceu em Abidjan, mas foi morar na França aos cinco anos de idade. Teve uma carreira meteórica, jogou no Le Mans, depois no Guingamp até chegar ao tradicional Olimpique de Marselha, onde marcou 34 gols em 55 jogos (média de 0,6/partida a cada dois jogos um gol) até se transferir para o Chelsea, aí meu amigo... Virou bagunça!

Você já imaginou um marfinense sendo apelidado de “The King of London” na Terra da Rainha? Pois é meu amigo, de 2004 à 2012 no Chelsea foram 341 jogos e 157 gols, um deles, talvez, o mais importante da história dos Blues. Aos 43 do segundo do tempo, perdendo a final da UEFA Champions League por 1 a 0 para o Bayern de Munique, em Munique (o que foi um acaso pois a final é escolhida em sorteio anos antes), Drogba, no alto de seus 1,88m, subiu no terceiro andar, para de cabeça vencer Manuel Neuer, empatar o jogo e calar a Allianz Arena levando o jogo para a prorrogação e após aos pênaltis onde ele foi encarregado de bater o último pênalti, o do título, o mais importante título do Chelsea (que mais tarde naquele ano viera a perder a final do Mundial para o Corinthians, muitos dizem, e eu também, que se fosse ele no lugar do Fernando Torres teríamos outro jogo, mas futebol não tem “se”).

Você deve pensar: Que sentimento de nacionalidade esse cara deve ter com a Costa do Marfim? Saiu de lá com cinco anos, deve até ter pensado em se naturalizar de outro país né? Mas não, Drogba é um dos super-heróis da humanidade, nunca esqueceu suas origens e sempre que pode está presente em seu país-natal ajudando de diversas maneiras; Drogba desenvolveu sua própria fundação, arranjou verba para a construção de hospitais, fez doações milionárias para outros institutos, promoveu campanhas contra a pobreza e sobre a conscientização da paz.

Em 2007, seu papel na Costa do Marfim foi tão reconhecido que ele virou embaixador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)

Mas, duas destas ações têm um significado especial.

Em 2007, o centroavante entrou ação ao pedir para que uma partida válida pelas eliminatórias para a Copa Africana de Nações de 2008 fosse sediada na capital rebelde. Diante de 25 mil pessoas, tanto do Norte como do Sul, a Costa do Marfim venceu Madagascar por 5 a 0 e garantiu a vaga no torneio. Pela primeira vez desde 2002, autoridades do governo pisavam em Bouaké (capital da região Norte rebelde). O jogo foi considerado o ato para selar a paz - no começo daquele mesmo ano, o então presidente Laurent Gbagbo tinha nomeado Guillaume Soro, líder dos rebeldes, como primeiro-ministro da nação. E, em 8 de outubro de 2005, após vencer o Sudão (naquela época não dividido) por 3 a 1 e garantir o país pela primeira vez numa Copa do Mundo, Drogba foi protagonista de um discurso antológico, talvez, o discurso mais importante de um cidadão marfinense no século.

Segue o discurso: "Homens e mulheres do norte, do sul, do leste e do oeste, provamos hoje que todas as pessoas da Costa do Marfim podem co-existir e jogar juntas com um objetivo em comum: se classificar para a Copa do Mundo.

Prometemos a vocês que essa celebração irá unir todas as pessoas. Hoje, nós pedimos, de joelhos: Perdoem. Perdoem. Perdoem. O único país na África com tantas riquezas não deve acabar em uma guerra. Por favor, abaixem suas armas. Promovam as eleições. Tudo ficará melhor.

Queremos nos divertir, então parem de disparar suas armas. Queremos jogar futebol, então parem de disparar suas armas. Tem fogo, mas os Malians, os Bete, os Dioula. Não queremos isso de novo. Não somos xenófobos, somos gentis. Não queremos este fogo, não queremos isto de novo."

Hoje, após anos de Guerra, a situação de segurança da Costa do Marfim é estável segundo a ONU, e muito se deve à atuação de Drogba que pôde se tornar um cidadão de influência mundial (Em 2010, foi eleito pela revista americana "Time" como uma das 100 personalidades mais influentes do mundo) graças ao futebol, que pra mim nada mais é do que o maior fenômeno de inclusão social do mundo, o futebol dilui todas as fronteiras e todas as diferenças e faz com que nós, independentemente de se estar em campo ou de se estar na torcida, sejamos iguais à pessoa que está do nosso lado. Ponto.


(*) Nicholas Payton O'neal Gonçalves das Neves, 21 anos, é nascido em Manaus (AM) é estudante de Relações Internacionais na UFABC. Amante de futebol, acredita que o mundo pode ser transformado pela modalidade.