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Depois do fim

Fernanda Silva, especial para o Cidadania

ONG dá chances a ex-presidiário e usa manifestação como forma de conscientizar a sociedade

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Em Copacabana, a inciativa protestou contra a morte de policiais no Rio de Janeiro diversas vezes. O grupo utiliza fardas manchadas de sangue nas ações.

João é mais um dos milhares de joões Brasil a fora. Um número de três dígitos, entretanto, mudou sua vida para sempre. Um sete um. Esse foi o crime pelo qual João Luiz Francisco Silva foi acusado. Ele e outros colegas fraudavam cartões de crédito, na cidade do Rio de Janeiro, para fazer compras com o benefício obtido. Até o dia em que a empreitada criminosa foi pega. Era 2010. João foi sentenciado a nove anos e oito meses em regime fechado.

Viu-se em uma carceragem de “superlotação extrema”, como, define, no seu primeiro ano. João conta que algumas celas do espaço, localizado no Bairro das Neves, em São Gonçalo, abrigavam 100 pessoas — mas foram projetadas para apenas 15. “O lugar era úmido, apesar de muito quente, tinha muita gente e, por isso, era propício para a proliferação de doenças”, lembra. “A alimentação era precária, assim como a higiene. Tinha muita tortura, tanto dos policiais como dos presidiários. Parecia um campo de concentração”, lamenta João.

O cenário caótico era amenizado com a ajuda de algumas instituições da sociedade civil, que levavam ajuda para dentro do sistema carcerário. Uma delas, chamada Rio de Paz.

Depois de cumprir quatro anos e três meses de condenação, conseguiu a condicional. Para garantir seu direito de liberdade, não pode sair de casa, em Madureira, depois das 23 horas, deve assinar papeis mostrando que está cumprindo a pena a cada três meses e é proibido de frequentar locais de risco. “Acontece que em todo lugar que você está no Rio de Janeiro pode ser arriscado, então, isso não é muito bem definido”, afirma João.

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Foto: Fernanda Silva
Na véspera da Copa do Mundo, Rio de Paz pedia aos governantes “Padrão Fifa” nos serviços públicos. Diversas manifestações foram feitas na praia de Copacabana.

O carioca sabe que foi uma exceção. Ao sair de sistema carcerário, conseguiu emprego no Rio de Paz, mesma ONG que outrora o ajudou ainda quando estava recluso. “A reinserção é muito difícil, você bate em portas e elas se fecham por você ter sido preso, por isso retomar a vida é complicado. Você imagina que está condenado ao fracasso, afinal, o senso comum aponta para isso e muita gente acaba reincidindo”, afirma. “Você fica descrente de que algo bom pode acontecer”.

Hoje, além de estudar direito, João é articulador social e media o relacionamento da ONG Rio de Paz com a sociedade. A iniciativa organiza ações que ajudam a população carioca e também tem o objetivo de dar visibilidade a causas pouco pautadas.

Lutando por todos

A ONG Rio de Paz começou em 2007, com o objetivo de reduzir os homicídios no Rio de Janeiro. Naquele ano, 6.133 pessoas foram mortas em todo estado, 2.336 delas na capital carioca, segundo dados divulgados pelo Instituto de Segurança Pública. Em março daquele ano, o grupo fez uma ação que teve repercussão internacional. Na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, centenas de cruzes foram colocadas representando os mortos em solos fluminenses. O objetivo era dar vozes aos invisíveis. “As pessoas nas comunidades, por exemplo, morrem e velam amigos diariamente, mas ninguém dá ouvido a elas”, ressalta Antônio Carlos, fundador e presidente da Organização.

Ao longo dos anos, o escopo da ONG foi ampliado. “Não temos um lado, mas quando há um crime que exige valor inegociável, como tirar a vida de uma criança, não temos como não fazer nada”, ressalta. As ações, que incluem máscaras vermelhas expostas em Copa e em frente à Espanada dos Ministérios, além de roupas de policiais penduradas em várias da mesma praia, ganharam repercussão em todo mundo.

O grupo saiu da Zona Sul para se espalhar pela cidade e hoje tem frentes e ações em várias capitais do País. “O objetivo é disseminar a cultura de respeito à vida humana”, explica Antônio.

Segundo ele, posição política, social, opção de gênero, raça, cor ou credo são indiferentes para a ONG, desde que o objetivo seja o mesmo: preservar pela vida. “Nós protestamos inclusive pela causa dos policiais militares, não podemos fechar nossos olhos para isso. Meu conceito de direitos humanos não pode excluir ninguém”, conta o fundador. João ainda lembra que muitos policiais também têm seus direitos violados. “Eles também enfrentam situações insalubres. Muitos têm a mesma baixa situação social do traficante, mas são colocados pelo Estado na linha de frente dessa guerra insana contra as drogas e acabam mortos”, ressalta.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Foto: Fernanda Silva
Na Capital do Brasil, o grupo faz ações anticorrupção frente à Esplanada dos Ministérios

Para Antônio, o Brasil sofre de um problema histórico. “Pensamos só em nós mesmos e isso nos impede de lutar pela causa do outro”, ressalta. “ Quando não atinge diretamente a pessoa, muita gente não reage — mesmo quando são tragédias absurdas, como a chacina de Osasco, da Candelária e do Carandiru”.

Aos 55 anos, Antônio acredita que as ações e as manifestações propostas pelo Rio de Paz, além de chamarem atenção dos governantes e moverem o poder público, também auxiliam na conscientização da população. Ele afirma que o grupo se manifesta como uma arte, igual a música e ao teatro. “É só uma outra forma de emitir informação e conhecimento”, ressalta. Segundo o presidente, o projeto trabalha em uma via de mão dupla. “Muitas vezes, somos pautados pela mídia. Mas também queremos levar casos de pouca visibilidade para as notícias”.