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Corrida pelas crianças

Fernanda Silva, especial para o Cidadania

Campanha #ChegadeTrabalhoInfantil quer conscientizar população sobre o problema

Fotos: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Fotos: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
A procuradora Patrícia de Mello destaca que, quem ver uma criança trabalhando, deve denunciar a situação. A mensagem na camiseta (destaque) ajuda a lembrar que a prática é ilegal.

Foi aos 11 anos, em Monte Sião, no interior de São Paulo, onde Patrícia Araújo colocou o pé pela primeira vez em uma confecção. Na cidade conhecida como capital das malhas, ela ganhou seu primeiro salário. Trabalhava algumas horas por dia para receber, no final do mês, algo que, imagina, seria hoje R$ 50,00. Ela lembra, sem ressentimentos, que entregava o dinheiro a seus pais, para ajudar nas contas de casa, e ficava com uma outra parte da quantia – pouco menos que a metade. Apesar de comemorar que, desde pequena, conseguiu ajudar financeiramente em casa, sabe que perdeu parte da infância, deixou de brincar e estudar e, por isso, nunca mudou de profissão.

Hoje, 18 anos mais tarde, entretanto, não faria o mesmo com seus filhos. “Sei que é importante colocar os estudos em primeiro lugar, quero que eles possam escolher com o que vão trabalhar”, afirma, com a voz tremula, como quem gostaria de ter a mesma oportunidade.

Atualmente, estima-se que 2,3 milhões de crianças brasileiras trabalham irregularmente. “Esse número está subestimado, porque uma série de situações que entendemos como trabalho, que são as crianças que estão cuidando dos irmãos, da casa, que não são contabilizadas”, explica Patrícia de Mello Sanfelici, coordenadora nacional de combate ao trabalho infantil do Ministério Público do Trabalho.

Justamente pensando em conscientizar a população sobre o problema, a entidade começou, em 2016 uma campanha com o objetivo de se aproximar da sociedade para fazê-la refletir sobre o quão nocivo o trabalho infantil pode ser. Dois anos mais tarde, por meio de parcerias com organizadores de corridas de rua, o órgão ganhou força no último ano. Para isso, estampou nas camisetas das competições hashtag #ChegaDeTrabalhoInfantil. A campanha ainda tem visibilidade em outros itens, como backdrops para entrevistas e fotos, além dos pórticos de chegada e largada.

“Nas camisetas, a gente tem uma campanha permanente, porque as pessoas não vestem apenas na corrida. Depois, usam para treinar, ir à academia, ao shopping. É uma iniciativa interessante de aproximação com a classe média, que precisa refletir sobre a exploração da mão de obra infantil”, explicou a procuradora. “Muitas vezes, é ela, a classe média, que vai aceitar esse trabalho. Uma hora, as pessoas vão pensar, por que tem tanta gente usando essa mensagem”.

“Funciona como apoio na aproximação com as pessoas, porque é um meio que fala com todo o mundo. Então, permite chegar à gente que, normalmente, não chegaríamos. Além disso, se um município, por exemplo, intensifica os esportes nas comunidades, desenvolve atividades que interessam aos adolescentes”.

O trabalho infantil

Na lei, o trabalho infantil tem uma definição objetiva. Ele é compreendido como o trabalho de toda pessoa com menos de 16 anos, salvo na condição de aprendiz. A partir dessa idade, pode-se trabalhar, mas não em atividades insalubres, perigosas e noturnas.

“Quando trazemos esse tema, a primeira resposta que temos é: ‘ah, mas é melhor a criança estar trabalhando do que estar roubando’. As pessoas fazem essa avaliação como se para essas crianças só existissem essas duas opções. Mas essas alternativas não são postas para outras crianças. Por que para essas, esse futuro já está consolidado? ”, questiona a procuradora Patrícia de Mello Sanfelici. “Tudo isso é resultado de uma família em situação de vulnerabilidade. Mas ele também está em vulnerabilidade. É um ciclo e, se a gente não produzir esse rompimento, a gente não vai ver o fim disso”.