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Corrida pela vida

Fernanda Silva, especial para o Cidadania

“Empresto Minhas Pernas” dá a oportunidade de pessoas com deficiência cruzarem a linha de chegada

Fotos Divulgação
Foto Digulação
A iniciativa conta com voluntários que não só empurram os beneficiados como também servem de “escolta”

Faltavam poucos metros para Ana Laura de Souza cruzar a linha de chegada. Ela levantou-se da cadeira de rodas adaptada onde foi empurrada durante o trajeto de 10 km, para dar os últimos dez passos da corrida com os próprios pés. Mas, já sem força nas pernas, afetadas pela esclerose múltipla, não conseguiu. Foi no colo do marido e com o apoio de quem acompanhava a disputa que, ovacionada, conseguiu concluir a prova – não apenas da corrida, mas da vida.

Em 2015, o diagnóstico de esclerose múltipla veio para um novo sentido às vivências de Ana Laura. Começou com uma dor na lombar, que se tornaram sensações de choque e fisgadas e, por fim, tropeços. Consequências das múltiplas inflamações que aconteciam no seu corpo.  Optou pela medicação para não deixar a doença progredir e pela corrida para sair de casa e expandir seus horizontes.

Com pouca força para caminhar e correr com as próprias pernas, ela as “pegam emprestadas” de voluntários de um projeto com nome autoexplicativo, o Empresto Minhas Pernas. Lá, são centenas de voluntários dispostos a correr provas empurrando cadeiras e dando a oportunidade de pessoas com deficiência cruzarem a linha de chegada como vitoriosos.

Nas provas com atuação do Empresto Minhas Pernas, diversos corredores se revezam para guiar os beneficiados nos percursos. Cada pessoa empurra a cadeira adaptada por uma distância, até o final da disputa. Para Ana Laura, a corrida diária é contra os percalços que a EM causa. A vitória, por sua vez, é em cada pequeno desafio vencido, não só por ela, mas por outras pessoas com deficiência beneficiadas pela iniciativa.

Estevan Claus, representante comercial e pai do Marcos Paulo, um jovem de 14 anos que teve uma contaminação no parto com citomegalovírus, foi o responsável pelo passo inicial. Com o filho, passou a frequentar um projeto em Santos voltado a pessoas com deficiência. “Em uma das vezes que eu estive lá, três garotos, o Danilo, o Marcus e o Leo se aproximaram. Como eles sabiam que eu gostava de corrida, pediram para eu participar de uma de rua e, na mesma hora, eu falei: ‘Vamos’”.

Foto Digulação
Além da corrida, outras atividades são oferecidas

Os primeiros passos

Foi em janeiro de 2016, com as cadeiras de uso e simples dos jovens, além do apoio de voluntários, que eles fizeram os primeiros 5 km, na Praia Grande. Durante todo o trajeto, o público aplaudia e ovacionava a atitude. “Os meninos ficaram muito felizes, acenavam para todos, gritavam, agradecidos”. Em uma chegada emocionante, foram homenageados como se fossem os vencedores da prova – e quem vai dizer que não? “Naquele momento, caiu uma ficha: isso aqui é um outdoor para inclusão”. O projeto, então, ganhou o propósito de chamar a atenção para a causa.

Em seguida, na internet, descobriram os triciclos de corrida próprios para cadeirantes. Com um logo e nome para o projeto, conseguiram dois patrocinadores e fizeram camisetas para vender. O lucro foi usado na compra dos quatro primeiros equipamentos adaptados do projeto.

Logo na primeira prova, seis cadeirantes foram beneficiados e 60 voluntários participaram. No início, a ideia era só levá-los para corridas.  Foi uma questão de tempo para que a iniciativa começasse a treinar as pessoas, já que muitos voluntários começaram a correr apenas para ajudar aquela causa. “A gente tirou cerca de 200 pessoas do sedentarismo. Era um projeto para pessoas com deficiência, hoje é um projeto não para, mas com eles”.

Assim, pessoas com outras deficiências e limitações de movimento chegaram no projeto. “Eles foram acolhidos normalmente. Foi só nesse momento que meu filho começou a frequentá-lo, porque ele achou que tinha atividade para ele”. Vieram junto, outros esportes, como surfe, skate e vôlei sentado. “A proposta é adaptar para todos: todas idades, raças, religiões e tipos de deficiência”. Agora, ao todo, são cerca de 400 cadastradas e 60 pessoas que participam semanalmente da iniciativa.