GRUPO DE CIDADANIA EMPRESARIAL


Desenvolvimento de programas socio-educativos.

Entre em contato e torne-se um parceiro do Grupo.

Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente.

Inscreva-se para receber nossas informações e novidades.

Coquetel de bem

Fernanda Silva, especial para o Cidadania

Apesar da evolução, os portadores de Hanseníase ainda lutam contra o preconceito. Só em 2016, o Brasil registrou quase 25,2 mil novos casos da doença.

Reprodução/Facebook
Reprodução/Facebook
Mensalmente, centenas de pessoas vão em busca das cestas básicas na iniciativa

Há pelo menos 60 anos, Alfim convive com a hanseníase e seus desdobramentos. Dos primeiros sintomas, ele nem se lembra direito. Morava em Minas Gerais, com seus pais. “Eu era moleque ainda. Quando eu suava, algum lugar do braço não ‘entrava’ suor”, tenta explicar. Anos mais tarde, migrou para São Paulo. Na Capital paulista, em seus primeiros trabalhos, sentia fortes e constantes dores de cabeça. Buscou um médico e foi diagnosticado.

Começou o tratamento. “Os especialistas davam os remédios, tomei por dois anos e então tive alta. Uns três anos depois disso, o problema começou de novo para mim”, lembra, hoje, aos 75 anos.

Apesar de a hanseníase ter cura, os sintomas dela ainda são presentes na vida de Alfim. As dormências nos pés, nas pernas e nas mãos são constantes. “Inclusive, não posso nem chegar perto do calor do fogo. Outro dia, estava mexendo no fogão e como eu não sinto direito, acabei me queimando. Estou até com a mão enfaixada. A gente tem que ter muito cuidado”, ressalta o senhor que toma dez comprimidos ao dia, para tratar, além da hanseníase, o colesterol e problemas na próstata.

Alfim é estatística em terras tupiniquins. Só em 2016, o Brasil registrou quase 25,2 mil novos casos, número que representava 11,6% do total global de novas ocorrências. O valor faz com que o país seja o segundo colocado na lista de locais com o maior número de novos casos da doença, ficando atrás somente da Índia e à frente da Indonésia.

Apesar de o número ainda ser expoente, o Ministério da Saúde celebrou a cifra. Isso porque ouve uma queda na detecção de casos nos últimos anos, que em 2007 correspondia a 40,1 mil pessoas, uma diminuição de 37,1% da taxa de diagnóstico do país.

Reprodução/Facebook
Reprodução/Facebook
Voluntários participam das ações no último domingo de cada mês

O que é a hanseníase?

Um dia conhecida como lepra, uma das doenças mais antigas da humanidade, a hanseníase é uma doença infecciosa causada por uma bactéria chamada Mycobacterium leprae. Hoje, o tratamento da doença é simples, basicamente feito por meio de um coquetel de antibióticos, disponíveis na rede pública, em Unidades Básicas de Saúde (UBS). No passado, entretanto, foi cercado de tabus. O governo brasileiro chegou a criar “leprosários” para isolar a população infectada.

Atualmente, a doença é classificada como uma endemia em decréscimo lento e contínuo. Segundo um trabalho de pesquisadores do Instituto Adolfo Lutz, o diagnóstico de hanseníase, em grande parte dos estados do país, ainda é tardio: cerca de um ano e meio a dois anos após o aparecimento dos sintomas. “Em São Paulo, as pessoas costumam recorrer ao médico mais rápido. Mas hoje, a maioria dos casos é do norte, nordeste, onde há pouco acesso a hospitais e informação. Assim, a coisa acaba ficando complicada”, concorda Hélio Leque. A pesquisa ainda indica que, no Sul do Brasil, a doença já apresenta prevalência abaixo de um para cada 10 mil habitantes, diferente da alta incidência encontrada na Amazônia Legal e Mato Grosso do Sul.

“O problema dessa pessoa é um só: o preconceito. Infelizmente, tem pessoas que não procuram entender. A internet pode ser um meio para pesquisar, por exemplo. Quando fala que a pessoa tem hanseníase, ela já sofre preconceito”, destaca Hélio, que convive constantemente com portadores da doença. “O preconceito, muitas vezes, vem da própria família. A gente aconselha, muitas vezes, eles nem comentarem sobre isso”.

A ajuda

Alfim aposentou por invalidez ainda aos 33 anos. Com o baixo salário que tem hoje, não conseguiria pagar todas as contas necessárias. Ele já nem sabe há quanto anos conta com a ajuda da Instituição Alice Tibiriça, que mensalmente lhe dá uma cesta básica.

“As coisas para mim eram muito difíceis. Um dia, há mais de 40 anos, eu estava internado. Um senhor que estava comigo no hospital falou que eu poderia conseguir uma cesta para me ajudar nos meus problemas. A assistente social me passou uma carta para eu levar na Instituição”, conta Alfim. Ele se soma a, pelo menos, outras 130 pessoas que recebem o benefício da iniciativa anualmente.

“Essa cesta serve muito para mim. Ajuda muito. Meu salário é muito pequeno, dá para comprar umas coisinhas e o remédio. Hoje não trabalho mais porque não aguento mais e pelos problemas de saúde”, destaca o senhor.

A Instituição foi fundada ainda em 1926, com o objetivo de dar assistência a portadores de hanseníase.  “Fazemos uma troca. Se a pessoa estiver fazendo o tratamento ou com sequelas profundas, ela recebe a cesta básica mensal”, explica Hélio Leque. Em 1993, o projeto passou a apoiar também portadores de HIV.

Pessoas de toda Capital e região metropolitana vão até o Bairro do Ipiranga em busca do auxílio mensal, que é proporcional ao tamanho da família beneficiada. “Não importa de onde vem, o que importa é ajudar”, destaca o entusiasta. “Nossa alegria é que uma pessoa chega aqui e fala que não precisa mais de cesta básica, porque já está curada e vai voltar ao convívio normal, podendo trabalhar e correr atrás”.