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Cidade inclusiva

Fernanda Silva, especial para o Cidadania

Embora as grandes metrópoles, como São Paulo, tenham melhorado suas estruturas para as pessoas com deficiência, muito ainda precisa ser feito.

Fotos: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
O Maio Amarelo propõe que a população se conscientize e fique atento ao trânsito, a fim de evitar acidentes

Sérgio Gatto, 50 anos, há 27 depende de cadeiras de rodas para se locomover. Ele levou um tiro e desde então precisou redescobrir seu corpo e readaptar sua mente para aceitar sua nova condição. Pouco tempo depois do acidente que o fez perder o movimento das pernas, a Avenida Paulista, ponto turístico da Capital, ganhou sua primeira rampa. A instalação ajuda na mobilidade de centenas de pessoas. Hoje, o centro urbano é referência quando o assunto é inclusão.

Apesar de viver bem com a deficiência, o funcionário público acredita que a sociedade ainda precisa ter mais políticas de inserção, para que o deficiente tenha liberdades e autonomia sem depender de ninguém. “Se houver mais respeito para todos e se a sociedade entender as necessidades das pessoas com deficiência, as coisas ficariam mais fáceis”, afirma.

Para ele, a sociedade enfrenta um processo evolutivo, mas ainda falta um detalhe importante: “olhar ao redor”, enfatiza. Segundo Gatto, os Jogos Paralímpicos Rio 2016 aumentaram a visibilidade da pessoa com deficiência no Brasil. Além disso, iniciativas em prol dessa parcela da população têm sido colocadas em prática. “Hoje, parte da frota de ônibus já está adaptada. Isso ajuda a nós, pessoas com deficiência, e não atrapalha as outras pessoas”, conta.

Sérgio acredita que empresas que não se adaptam às necessidades de um público mais amplo, acabam perdendo para o mercado. Para ele, existe uma rede que conecta todas as pessoas a alguém com deficiência. “Quando eu passei a usar a cadeira de rodas, deixei de ir no barzinho que frequentava porque não tinha acessibilidade. Não só eu, mas todos meus amigos. Nós migramos para um outro ambiente que me dava maior autonomia e este outro local ganhou vários novos clientes”.

Para Cid Torquato, secretário municipal da Pessoa com Deficiência, em São Paulo, as zonas urbanas têm evoluído, contudo, a agilidade está mais lenta do que o ideal. “Existem políticas fáceis de serem aplicadas que podem gerar grandes resultados. Diminuir as barreiras físicas seria um avanço. A falta de rampas e de piso tátil, por exemplo, ainda são grandes obstáculos”. Para ele, é preciso construir ambientes mais inclusivos. “Falta pensar em um mundo que contemple a participação de todos, mas ainda há resistência da sociedade em dar plenos direitos às pessoas com deficiência”, conclui.

Segundo Gatto, o maior problema não é a ausência de políticas públicas, mas a falta de cobrança em cima delas.

Sancionada pela presidente Dilma Rousseff em julho de 2015, a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência nº 13.146 determina que todos os meios de hospedagem devem oferecer ao menos 10% de seus apartamentos adaptados para as pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. “Infelizmente, essa lei não é cumprida. Não acho que as regras não são seguidas por maldade, mas sim por falta de conhecimento e de informação”.

“As políticas públicas estão aí, só precisam ser cumpridas. As pessoas só não se dão conta que todos são beneficiados quando elas funcionam”, concorda Torquato. “Todo espaço público deve ser feito para todos, sem exceção”, ressalta.

Há dez anos, o secretário utiliza cadeira de rodas elétrica para se locomover. Para ele, a rigor, não é necessário que a Secretaria da Pessoa com Deficiência seja liderada por alguém dessa comunidade, mas “simbolicamente, faz sentido”, afirma. “Quando participo de eventos externos, por exemplo, o fato de eu ter deficiência torna muitos pontos e argumentos autoexplicativos. Você, além de trabalhar em prol de algo, serve também como exemplo e referência para a comunidade. ”

Fotos: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
O evento contou com a presença de secretários da prefeitura municipal, além de voluntários, que proporcionaram diferentes atividades

Maio Amarelo

Em meio à falta de conhecimento da sociedade e falta de espaço para pessoas com deficiência, acontece o Maio Amarelo. Além de alertar o poder público e a sociedade sobre o alto índice de mortes e feridos no trânsito, o evento mundial também serve para conscientizar a respeito das necessidades especiais importantes para alguns grupos.

Na ação realizada na Avenida Paulista, no dia 5 de maio, voluntários e funcionários da Prefeitura permitiram que os cidadãos enfrentassem, por alguns minutos, as situações e dificuldades constantes na vida das pessoas com deficiência.

Nilson Nicodemos, operador de telemarketing, participou da iniciativa. Ele atravessou a principal avenida de São Paulo com os olhos vendados. “Se não é fácil para mim, que já vi a rua e conheço o trajeto, imagina para um deficiente visual”, conta ele. “Depois de viver isso, a gente passa a ter outra consciência e pensar mais no outro”, acrescenta.

Segundo Josy Schwartz, educadora da Companhia de Engenharia de Trafego (CET), expor as pessoas à realidade de outra é um exercício que provoca empatia.

“Isso sensibiliza para ver as dificuldades e a ensina a ajudar de maneira correta”, afirma a psicóloga. Além disso, a iniciativa também educa pedestres a atravessar a rua. “Muita gente, por incrível que pareça, não sabe fazer isso com cautela. Quando o farol está ficando vermelho, elas dão aquela ‘corridinha’, podem tropeçar e até ser atropelado”. Segundo ela, os pedestres precisam aprender sobre segurança. “A preferência é do pedestre, mas eles têm que saber que existem regras a seguir. É preciso priorizar a vida”.

Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
A iniciativa convidou cidadãos a enfrentarem por alguns minutos os desafios de deficientes físicos e visuais

Prevenção de acidentes

Segundo dados disponibilizados pelo Maio Amarelo, 50 mil pessoas morrem anualmente no Brasil e outras 440 mil ficam sequeladas devido à acidentes de trânsito. “É como se um avião caísse por dia no país”, afirma Josy Schwartz. Para os números são inaceitáveis. “Isso é uma loucura, uma calamidade e precisa diminuir. A violência no trânsito é um problema da cidade”, afirmou.

Sergio Avellada, secretário de Mobilidade e Transporte, acredita que a iniciativa mundial deve chamar atenção parar a diminuição de mortes no transito. Segundo ele, mais de três (3,3) pessoas morrem diariamente por acidentes de trânsito na cidade de São Paulo — pelo menos uma (1,3) delas é pedestre. “Eles são o elo mais fraco, especialmente se forem deficientes”, lembra o Avellada.

Durante o evento na Paulista, o secretário também colocou vendas nos olhos para atravessar a rua e percebeu os desafios. “Há pouco tempo para atravessar, já estamos mudando em algumas localidades e vamos mudar em outras”, afirmou. Em sua cadeira de rodas, Sérgio Gatto confirma: “O tempo é muito curto, o ritmo paulista é muito rápido, logo, o farol fica aberto por um tempo que não é o suficiente”.