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Além do estigma

Fernanda Silva, especial para o Cidadania

Portador de Síndrome de Down, Marinho quebra os limites impostos pela sociedade e prova que não há barreiras para quem quer correr cada vez mais rápido

“Foi um baque”, recorda o Mário Torres sobre o momento em que se deu conta que seu filho, recém-nascido, tinha Síndrome de Down. O ano era 2002. Ao lado de sua esposa, Lucinéia da Silva Oliveira Torres, o pai se desdobrou para dar boas oportunidades a Marinho, como é carinhosamente chamado. Ele cresceu fazendo todas atividades e frequentando escola regular. “Tudo aconteceu naturalmente na vida dele”, destaca o pai. Também de forma despretensiosa, veio o atletismo. Mal sabiam eles que, anos mais tarde, a modalidade lhe renderia pódio mundial.

Foto Divulgação
Foto DivulgaçãoO esporte entrou na vida de Marinho por acaso e, hoje, faz parte da sua rotina

A família saiu do Mato Grosso do Sul para São Paulo em busca de melhores oportunidades. Começaram, então, os treinamentos de atletismo. Em São Caetano, no ABC Paulista, conheceram o professor Maurício Martins dos Santos, que, de cara, viu potencial no aluno com síndrome de down.

“Vendo que ele tinha boa qualidade motora, apesar da característica, e uma boa parte cognitiva, percebi que ele estava evoluindo bastante”, recorda Maurício. O professor, então, buscou os resultados de seus potenciais concorrentes e percebeu que ele estava com o melhor terceiro tempo do Brasil em sua categoria. “Começamos um treinamento com mais afinco, visando o alto rendimento e deu certo”.

Sua primeira competição foi em 2018, um meeting de atletismo, em São Paulo, no centro paraolímpico. Depois, veio o Campeonato Brasileiro, onde foi primeiro lugar, batendo o recorde sul-americano da competição e fazendo o melhor tempo nos 100m rasos para atletas com Síndrome de Down.

Em outubro, participou do Mundial, na cidade de Funchal, na Ilha da Madeira em Portugal, onde conquistou o segundo lugar e voltou a quebrar o recorde sul-americano com o tempo de 13s96. Ficou em segundo lugar no 4x100. Foi, então, o primeiro Síndrome de Down do Brasil a chegar em uma final de 100m rasos no Mundial.

Desafios do cromossomo extra no par 21

A Síndrome de Down é resultado de um acidente genético no cromossomo 21. O portador da doença, ao invés de apresentar duas cópias dele, conta com três. O resultado desse item extra são deficiências intelectuais e de aprendizado, além de características físicas semelhantes.

“Treinar uma pessoa com síndrome de down é desafiador porque, aqui no Brasil, a gente não tem recursos nem para trabalhar com esportes olímpicos. Não há apoio nenhum”, afirma o ex-atleta de 100m e treinador voluntário, Maurício. “Seu volume é mais baixo [quando comparado com os outros alunos], mas ele faz as mesmas coisas. Ele é supercompetitivo e acaba não correndo com os demais porque não gosta de perder”, destaca o professor.

Hoje, a síndrome de down não é um esporte paralímpico, por isso, existem competições paralelas voltadas a esse público. “Eles são pessoas normais que podem se desenvolver intelectualmente e motoramente. Antes, eles não faziam atividade física, não se envolviam na sociedade e a expectativa de vida era muito baixa”, ressalta Maurício.

O professor, entretanto, reforça o coro do pai. Ambos acreditam que há sim, preconceito com a situação de Marinho, mas o menino não está exposto a isso. “Não reparei preconceito com o Mário no clube, mas muita gente não sabe lidar com as pessoas com síndrome de down. Alguns se afastam, não sabem como ele vai reagir”, enfatizou o professor. "Sabemos que existe preconceito. Vivemos pouca coisa em relação a isso aqui em São Paulo, já vivemos em outros lugares, mas estamos administrando”, concordou o pai.